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Caruru e vatapá em Salvador, peixe no interior: entenda as origens e diferenças dos cardápios típicos da Sexta-feira Santa na Bahia

Entenda as origens e diferenças dos cardápios típicos da Sexta-feira Santa na Bahia A forma como a Sexta-feira Santa é celebrada na Bahia varia de acordo co...

Caruru e vatapá em Salvador, peixe no interior: entenda as origens e diferenças dos cardápios típicos da Sexta-feira Santa na Bahia
Caruru e vatapá em Salvador, peixe no interior: entenda as origens e diferenças dos cardápios típicos da Sexta-feira Santa na Bahia (Foto: Reprodução)

Entenda as origens e diferenças dos cardápios típicos da Sexta-feira Santa na Bahia A forma como a Sexta-feira Santa é celebrada na Bahia varia de acordo com a formação histórica de cada região. Enquanto pratos típicos da culinária afro-baiana, como caruru e vatapá são protagonistas nas mesas de famílias de Salvador e do Recôncavo baiano, em algumas cidades do interior a tradição costuma seguir um padrão mais ligado ao catolicismo europeu. Segundo o historiador Ricardo Carvalho, essa diferença está relacionada às origens culturais de cada local. "A diferença de Salvador e essas outras cidades está diretamente ligada à intensidade da formação histórica afro-atlântica da capital e do Recôncavo baiano. Salvador foi o principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas portuguesas, o que acabou resultando em uma densidade cultural africana que é tão forte e contínua", explicou o historiador em entrevista ao g1. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia De acordo com Ricardo Carvalho, essa influência africana ultrapassa a religiosidade e impacta diretamente no cotidiano da população. "Essa presença não se limitou apenas à religiosidade, mas acabou estruturando hábitos alimentares, formas de sociabilidade e práticas simbólicas no cotidiano. É nesse ambiente que a culinária ritual afro-baiana se consolida e vai se entrelaçando com o calendário católico". Em Salvador, soteropolitanos costumam comer caruru, vatapá e outro quitutes na Sexta-feira Santa Gabriela Braga/Bahia FM Já em outras regiões do estado, o processo histórico seguiu um caminho diferente. "Cidades como Barreiras e Vitória da Conquista têm formações históricas mais ligadas à expansão pecuarista no interior e com fluxos migratórios muito distintos. A influência africana, embora presente, não se estruturou da mesma forma nesse cotidiano ritual alimentar", pontuou Carvalho. Nessas localidades, o cardápio costuma ser marcado por práticas mais tradicionais do catolicismo europeu. "Na Sexta-feira Santa, essas regiões tendem a seguir mais estritamente a tradição católica europeia, centrada na abstinência da carne vermelha e no consumo de peixes, sem a incorporação desses pratos ritualísticos afro-baianos. Não se trata necessariamente de uma ausência cultural, mas de uma trajetória histórica diferente, mais europeia, e que acabou moldando práticas distintas dentro do estado da Bahia". Prática de comer bacalhau na Sexta-Feira Santa veio dos portugueses GETTY IMAGES Entre o luto cristão e a celebração afro-baiana A presença de pratos como caruru, vatapá e outros quitutes típicos na Sexta-feira Santa em Salvador vai além de uma simples adaptação regional da tradição católica. Segundo o historiador Ricardo Carvalho, trata-se de um processo histórico profundo, marcado pelo encontro entre diferentes matrizes culturais. "Trata-se, na verdade, de uma síntese histórica que está profundamente enraizada, um encontro entre a tradição cristã ibérica e as matrizes religiosas africanas, principalmente aquelas de origem iorubá". Quitutes são conhecidos em Salvador como "comida baiana" Gabriela Braga/Bahia FM De acordo com o historiador, o significado da data ganha novos contornos no contexto baiano. "A Sexta-feira Santa, que marca o luto pela morte de Cristo, é reinterpretada no contexto de Salvador como um momento de recolhimento que privilegia alimentos associados ao sagrado afro-brasileiro, muitos deles ligados às oferendas para orixás como Xangô, Iansã, etc." Além do aspecto religioso, esses alimentos também carregam um forte valor simbólico e comunitário. Carvalho lembra que o caruru, por exemplo, é associado a rituais e festas religiosas, e carrega a ideia de partilha e coletividade. "Ao serem incorporados na Sexta-feira Santa, esses pratos deslocam a lógica do sacrifício cristão para um campo de memória cultural afro-baiano muito forte, criando uma experiência única em que o sagrado não é apenas penitência, mas também celebração identitária". Essa releitura também é explicada pela forma como povos africanos enxergam a morte e a espiritualidade. Para o babalorixá Vilson Caetano, que também é professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), a alimentação tem papel central nesse processo. "Na Sexta-feira da Paixão, o catolicismo lembra a morte de Jesus. Os africanos escravizados também tomavam parte dessas celebrações, sendo obrigados a participar de alguma maneira delas". Prato típico baiano com moqueca de camarão, vatapá, caruru, arroz e feijão fradinho Jade Coelho/g1BA Segundo Vilson, os africanos celebram o momento com fartura, pois "comer e beber são essenciais para a entrada no mundo dos antepassados". "Desta maneira, a morte de Jesus, principal liderança do Cristianismo, é celebrada desta maneira. Daí o banquete servido com iguarias originadas das cozinhas da África Ocidental na sexta-feira em que se comemora a Paixão de Cristo". É uma maneira africana de relembrar a entrada de Jesus no mundo dos antepassados e a sua continuidade no mundo dos vivos". O babalorixá também destacou que, nessa perspectiva, a celebração não está ligada à espera pela ressurreição no terceiro dia. "O africano não acredita no terceiro dia, não aguarda o terceiro dia para fazer memória da entrada do ente querido no mundo dos antepassados, porque o provérbio diz que os que nascem são sempre vivos, e a morte significa uma continuidade que deve ser rememorada com comida e bebida", pontuou. O entendimento é de que a sexta-feira é o dia da própria resurreição. Como ressaltou o babalorixá, essa foi mais uma intervenção dos povos de origem africana no catolicismo. Prato típico baiano com moqueca de camarão, farofa de dendê, vatapá, caruru e feijão fradinho Eric Luís Carvalho LEIA TAMBÉM: Veja o que abre e o que fecha em Salvador e região metropolitana na Semana Santa Confira programação das celebrações da Semana Santa em Salvador Transporte terá operação especial no feriadão da Semana Santa na Bahia Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. 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